quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ariano Suassuna, in memoriam


Foi com profundo pesar que recebemos, no último dia 23 de julho, a notícia do falecimento do escritor Ariano Suassuna, ocorrido na mesma data, na Cidade do Recife, em decorrência de um acidente vascular cerebral.
Romancista, dramaturgo, poeta, ensaísta e idealizador do Movimento Armorial, que tem por meta fundamental a elaboração de uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste do Brasil, se fez o autor do Auto da Compadecida e do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta um dos mais fulgurantes astros do firmamento literário nacional, assim como um dos mais notáveis cultores e divulgadores das tradições pátrias em geral e nordestinas em particular. Daí ser sua partida deste Mundo uma perda irreparável para este vasto Império por nome de Brasil, que o tem, aliás, não apenas entre seus primeiros homens de letras, mas também entre seus primeiros patriotas.
Ariano Villar Suassuna nasceu na Cidade de Nossa Senhora das Neves da Paraíba, atualmente chamada João Pessoa, a 16 de junho de 1927, sendo filho do Dr. João Urbano Pessoa de Vasconcellos Suassuna, então Presidente da Paraíba, e de D. Rita de Cássia Dantas Villar. No ano seguinte, havendo o Dr. João Suassuna deixado a Presidência da Paraíba, retornou, com toda a família, para o Sertão, lugar de origem desta, que passou a residir na Fazenda Acauã, no Município de Aparecida da Paraíba. Dois anos mais tarde, durante a chamada Revolução de 1930, o Dr. João Suassuna, então Deputado Federal, foi assassinado, no Rio de Janeiro, por partidários de seu falecido rival, João Pessoa, que o acusavam de estar envolvido no assassínio deste, fato que, aliás, desencadeara o aludido levante político-militar.
Em 1933, a família Suassuna, agora liderada por D. Rita e bastante empobrecida depois da grave seca do ano anterior, que dizimara praticamente todo o seu gado, mudou-se para Taperoá, no alto Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte, onde Ariano estudou as primeiras letras e se ambienta, aliás, boa parte de sua rica obra literária, incluindo o auto e o romance que mencionamos no início deste artigo.
No ano de 1942, mudou-se a família Suassuna para o Recife, onde Ariano estudou no Ginásio Pernambucano, no Colégio Americano Batista e no Colégio Oswaldo Cruz, no qual concluiu o ensino secundário, ingressando, em 1946, na tradicional Faculdade de Direito do Recife.
Entre os anos de 1946 e 1948, publicou, na revista Estudantes, da Faculdade de Direito, no jornal do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina e em suplementos de jornais recifenses, seus primeiros poemas ligados ao romanceiro popular do Sertão Nordestino. Em 1947, escreveu a primeira peça teatral, Uma mulher vestida de sol, com a qual ganhou, no mesmo ano, o Prêmio Nicolau Carlos Magno, do Teatro do Estudante de Pernambuco.   
Em 1948, inspirado no trabalho do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, principiou a fazer teatro ambulante, sendo sua peça O desertor de Princesa, que tinha então o título de Cantam as harpas de Sião, montada, pelo Teatro do Estudante de Pernambuco, no Parque 13 de Maio, no Recife. No ano seguinte, escreveu a peça Os homens de barro e, em 1950, o Auto de João da Cruz, peça inspirada em folhetos da literatura de cordel, pela qual recebeu o Prêmio Martins Pena, conferido pela Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco. Ainda em 1950, formou-se em Direito e, em virtude de doença pulmonar, se mudou para Taperoá, onde residiu até 1952 e escreveu, em 1951, a peça para mamulengos Torturas de um coração ou em boca fechada não entra mosquito.
Em 1952, após retornar ao Recife, começou a trabalhar, como advogado, no escritório do Dr. Murilo Guimarães e escreveu a peça O arco desolado, que mereceria, dois anos mais tarde, menção honrosa no Concurso do IV Centenário da Cidade de São Paulo, e que foi inspirada na peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca.
Entre os anos de 1952 e 1956, dedicou-se, sobretudo, à advocacia, não deixando, porém, de escrever. São desta época, além da aludida peça O arco desolado, as peças O castigo da soberba, de 1953, O rico avarento, de 1954, e Auto da Compadecida, escrita em 1955, e também o romance A história do amor de Fernando e Isaura, que, inspirado na lenda celta de Tristão e Isolda, foi concluído em 1956 e publicado apenas em 1994.
No ano de 1956, deixou a advocacia e se tornou professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco, escrevendo, para seus alunos, um Manual de Estética, publicado, em edição mimeografada, pelo Diretório da Faculdade de Filosofia. Lecionaria, ainda, na mesma universidade, Literatura Brasileira e Teoria do Teatro, além de História da Cultura, esta última disciplina no curso de mestrado em História da referida instituição de ensino. Ainda no referido ano, passou a dirigir o setor cultural do Serviço Social da Indústria-Departamento Regional de Pernambuco, permanecendo em tal cargo até 1960.
Em 1957, desposou D. Zélia de Andrade Lima, que lhe daria seis filhos. No mesmo ano, com a peça O casamento suspeitoso, montada em São Paulo pela Companhia Sérgio Cardoso, recebeu o Prêmio Vânia Souto de Carvalho, da Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco, e, com a peça O santo e a porca, ganhou a medalha de ouro da Associação Paulista dos Críticos Teatrais. Ainda em tal ano, foi publicada, no Rio de Janeiro, pela Editora AGIR, a primeira edição do Auto da Compadecida.
No ano de 1958, escreveu a peça O homem da vaca e o poder da fortuna, e recebeu, com o Auto da Compadecida, a medalha de ouro da Associação Paulista de Críticos Teatrais. Foi considerado o “Melhor Autor Nacional de Comédia” pela Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, então ainda Distrito Federal, e recebeu, ainda, o Prêmio Vânia Souto de Carvalho e o Prêmio Samuel Campelo, ambos conferidos pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco.
Em 1959, já nacionalmente consagrado e reconhecido como um dos principais dramaturgos brasileiros, escreveu a peça A pena e a lei, feita a partir de seu entremês para mamulengos Torturas de um coração; recebeu novamente os prêmios Vânia Souto de Carvalho e Samuel Campelo, da Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco, e, por fim, teve o Auto da Compadecida publicado, em tradução polonesa, pela revista Dialog, de Varsóvia. No ano seguinte, formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e escreveu, a partir de seu entremês O homem da vaca e o poder da fortuna, a Farsa da boa preguiça, que seria montada, um ano mais tarde, pelo Teatro Popular do Nordeste, que também encenaria, em 1962, sua peça A caseira e a Catarina, escrita neste último ano.
No ano de 1963, foi publicada, pela University of California Press, a tradução do Auto da Compadecida para o idioma de Shakespeare e de Ezra Pound. No ano imediato, publicou, pela editora Imprensa Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco, as peças Uma mulher vestida de sol e O santo e a porca. A primeira versão desta última obra para a língua de Cervantes, de Calderón de la Barca e de Lope de Vega seria publicada dois anos mais tarde, na Argentina. Ainda em 1964, veio à luz a tradução holandesa do Auto da Compadecida, cuja versão castelhana seria dada à estampa no ano seguinte, na Espanha.
  Em 1967, foi o autor de A História do amor de Fernando e Isaura um dos membros fundadores do Conselho Federal de Cultura, ao qual pertenceu até o ano de 1973, nele convivendo com intelectuais como Hélio Vianna, Adonias Filho, Octavio de Faria, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Josué Montello, Djacir Menezes, Pedro Calmon, Afonso Arinos de Mello Franco, Peregrino Júnior, Gladstone Chaves de Mello, Vianna Moog, Sílvio Meira, Gustavo Corção e Andrade Muricy [1]. Em 1968, tornou-se também um dos membros fundadores do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, de que igualmente fez parte até 1973.
Nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco em 1969, ocupou tal cargo até 1974. Ainda em 1969, a peça A pena e a lei foi premiada no Festival Latino-Americano de Teatro, em Santiago, no Chile, e foi gravada, no Brasil, a primeira versão cinematográfica do Auto da Compadecida, sob a direção de George Jonas.
No ano de 1970, foi lançado, no Recife, o Movimento Armorial, por ele idealizado, e foi publicada, em Paris, edição do Auto da Compadecida traduzida para a língua de Victor Hugo, Balzac, Baudelaire e Mallarmé.
Em 1971, publicou, pela José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, por ele classificado como “romance armorial brasileiro”, é, em nosso sentir, não apenas sua obra-prima, como também um dos grandes clássicos da Literatura Sertaneja, Nordestina e Brasileira. No mesmo ano, também deu à estampa, pela Editora AGIR, a peça A pena e a lei, enquanto na então Alemanha Ocidental, foi publicada versão do Auto da Compadecida no idioma de Goethe, Hölderlin, Rilke e Stefan George.
Rachel de Queiroz escreveu, com razão, no prefácio que fez ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, em Ariano Suassuna, assim como, em seu entender, em Villa-Lobos e Portinari, “a força do artista obra o milagre da integração do material popular com o material erudito, juntando lembrança, tradição e vivência, com o toque pessoal de originalidade e improvisação” [2]. Como ponderou a romancista de O Quinze, o autor paraibano sempre olhou para o Mundo Sertanejo “com a visão do exilado, ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal”, por isso sempre o descrevendo “muito belo e mágico” e tendo “recuo suficiente para descobrir o mistério onde os da terra naturalmente só veem o cotidiano” [3].
Carlos Drummond de Andrade se referiu ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, por ocasião de seu lançamento, como o “extraordinário romance-memorial-poema-folhetim que Ariano Suassuna acaba de explodir”, ressaltando o caráter “febril” do livro e a “fantasmagoria de suas desaventuras, que trazem a Idade Média para o fundo Brasil do Novecentos” [4]. Carlos Lacerda, por seu turno, também por ocasião do lançamento do aludido romance, afirmou que, “entremeado, todo o tempo, de símbolos e alusões, de recordações e fantasmas”, é tal livro um “poço inesgotável de estudos analíticos, livro de cabeceira para psicólogos e sociólogos”, assim como uma verdadeira “explosão de maravilha”, que ousou comparar mesmo ao Dom Quixote de Cervantes [5].
Maximiano Campos, por seu turno, aduziu, no posfácio escrito ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, com aquela obra, o Brasil encontrava um “grande romancista” em Ariano Suassuna, que já era, em sua opinião, “seu maior dramaturgo”. Este “livro, mágico, violento e belo” é, em seu sentir, um romance superior, como Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, pertencendo, assim como esta obra, ao número dos “livros que transcendem ao mero enredo e fabulação e nos fazem ficar tentados a chamá-los de epopeias” [6]. Em tal romance vemos, ainda nas palavras de Maximiano Campos, Ariano Suassuna “construindo, com o auxílio do sonho e a força do seu poder criador, o seu castelo rude e poético, sertanejo e barroco, áspero e iluminado como as terras do seu Sertão” [7].
Em 1973, com o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, recebeu Ariano Suassuna o Prêmio de Ficção conferido pelo Ministério da Educação. No ano seguinte, publicou, pela José Olympio Editora, a Farsa da boa preguiça e uma Seleta em prosa e verso; pela editora Guariba, do Recife, a obra Ferros do Cariri, e, pela Editora Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco, O Movimento Armorial.
Em 1975, foi nomeado Secretário de Educação e Cultura da Cidade do Recife, cargo que ocupou até o ano de 1978, e deu à estampa, pela Editora Universitária, a sua Iniciação à Estética. Entre 1976 e 1977, publicou, na forma de folhetins, no Diário de Pernambuco, As infâncias de Quaderna, memórias  da meninice do personagem-narrador do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que tem, aliás, muito do próprio autor. Ainda em 1977, foram publicados, num só volume, o “romance armorial” História do rei degolado nas caatingas do Sertão e a “novela romançal brasileira” Ao sol da onça Caetana, e, em 1979, foi editada, em Stuttgart, tradução alemã do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta.
Em 1981, com o falecimento do Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, herdeiro do trono brasileiro, Ariano Suassuna, que era, desde a juventude, um militante da causa monárquica, se autointitulando um “monarquista de esquerda”, abandonou o movimento monárquico, desgostoso por saber que os dois filhos mais velhos de Dom Pedro Henrique, Dom Luiz e Dom Bertrand, que passaram a encabeçar o referido movimento, eram membros da organização “direitista” denominada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Segundo suas próprias palavras, tal desgosto não foi senão “o desgosto de que aquele meu sonho, que eu achava tão bonito, tivesse acabado”, sendo tal sonho, por seu turno, o sonho de ver “um príncipe que tomasse não o lado do Brasil oficial, mas do Brasil real, do povo de Canudos” [8], do Império do Belo Monte, ou “Império do Belo-Monte de Canudos”, como dizia [9].
Jamais, porém, deixou Suassuna de acreditar e proclamar que a forma de governo mais adequada à Tradição Nacional e ao chamado Brasil real é a Monarquia, que é, ademais, em seu entender, esteticamente “mais bonita do que a república” [10].  
Os mesmos motivos que levaram o autor da História do rei degolado nas caatingas do Sertão a deixar a militância monárquica o levaram a anunciar, na mesma ocasião, que se afastava definitivamente da Literatura. Poucos anos mais tarde, contudo, voltou a escrever, iniciando a confecção de um novo romance, espécie de continuação do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta e que seria, segundo ele, sua obra máxima, mas que, infelizmente, não foi concluído, tendo sido apenas terminado o primeiro volume de tal obra, ainda inédito.
Em 1987, Suassuna deixou, depois de trinta anos, de ensinar História da Cultura no curso de mestrado em História da Universidade Federal de Pernambuco e, em 1989, deixou de lecionar Teoria do Teatro, Estética e Literatura Brasileira na mesma universidade, se aposentando. No mesmo ano, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, tomando, no ano seguinte, posse da cadeira número 32 da chamada Casa de Machado de Assis, cujo patrono é Manuel de Araújo Porto-Alegre, Barão de Santo Ângelo, e cujo primeiro ocupante foi Carlos de Laet.
Em 1993, foi eleito membro da Academia Pernambucana de Letras, na qual ocupou a cadeira número 18, cujo patrono é Afonso Olindense Ribeiro de Souza. No mesmo ano, foi realizada, em São José do Belmonte, nos Sertões de Pernambuco, a primeira Festa da Pedra do Reino, cavalgada inspirada no romance de Suassuna.
No ano de 1994, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, uma adaptação da peça Uma mulher vestida de sol, e foi publicado, pelas Edições Bagaço, do Recife, o romance A história do amor de Fernando e Isaura, escrito, como vimos anteriormente, em 1956. No ano seguinte, foi nomeado, pelo Governador Miguel Arraes, Secretário de Cultura de Pernambuco, cargo que ocupou até 1998, e foi exibida, na Rede Globo de Televisão, uma adaptação da Farsa da boa preguiça.
Em 1998, foi publicado, no Recife, pela editora Ancestral, o CD Poesia viva de Ariano Suassuna e, no ano seguinte, pela Editora Universitária, o livro Poemas. Embora poucos sejam aqueles que dão importância à poesia de Suassuna, é este, inegavelmente, um inspirado poeta, sendo mister assinalar, ademais, que, como afirmou ele, a poesia era a “fonte profunda” de tudo quanto escrevia, incluindo o teatro e o romance [11], o que fica bem claro, aliás, para quem lê seus escritos em prosa, notadamente o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que é, sem dúvida alguma, um  dos grandes poemas em prosa que cantam o Mundo do Sertão, ao lado de obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, Terra de Sol, de Gustavo Barroso, e Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.
Em 1999, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, em quatro capítulos, adaptação do Auto da Compadecida dirigida por Guel Arraes. Tal adaptação, que teve enorme sucesso de público, foi convertida em filme de igual sucesso no ano seguinte.
No ano de 2000, foi Suassuna eleito membro da Academia Paraibana de Letras, passando a ocupar a cadeira número 35, cujo patrono é Raul Campelo Machado, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba.
Em 2007, em homenagem aos oitenta anos de Ariano Suassuna, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, a minissérie A Pedra do Reino, adaptação do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho.
Em 2011, Ariano Suassuna se tornou Secretário da Assessoria de Eduardo Campos, então Governador de Pernambuco, permanecendo no cargo até abril deste ano. Sofreu a 21 de julho o acidente vascular cerebral que o vitimou dois dias mais tarde.
Não podemos concluir o presente artigo a respeito da vida e da obra do autor do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta sem evocar o fato de que teve este, em Taperoá, entre os anos de 1938 e 1941, seus dois primeiros mestres de Literatura nos tios Manuel Dantas Villar, meio ateu, republicano, anticlerical e de ideias socialistas, e Joaquim Duarte Dantas, católico, monarquista e integralista. Foi, aliás, em grande parte, pela influência do primeiro que se tornou Ariano Suassuna um homem que se proclamava “de esquerda” e mesmo socialista, do mesmo modo que foi graças à influência do segundo que se tornou o escritor patrício católico apostólico romano e monarquista, assim como profundo admirador da figura d’El-Rei Dom Sebastião I “de Portugal, do Brasil e do Sertão”, como diria [12]. Integralista talvez não tenha se tornado por não haver conhecido o pensamento econômico e social do Integralismo, inspirado, aliás, na Doutrina Social da Igreja, que o autor da História do rei degolado nas caatingas do Sertão admirava, a associando, porém, equivocadamente, à “esquerda” e ao socialismo.
Da mesma forma, estamos certos de que, caso houvesse conhecido a fundo a obra literária e religiosa de Plínio Salgado, teria Suassuna nutrido pelo Chefe Nacional do Integralismo mais respeito do que aquele já considerável que nutriu por este, apesar do autor da Vida de Jesus e de Primeiro, Cristo! havê-lo acusado de ser comunista e ter atacado duramente seu Auto da Compadecida [13].
Isto posto, cumpre sublinhar que, a despeito de se proclamar “esquerdista” e mesmo socialista, foi Ariano Suassuna, ao longo de toda a vida, um crítico tão ferrenho do comunismo quanto o foi do capitalismo liberal e daquilo a que bem denominou “modernidade liberal” [14]. A propósito, reputamos ser relevante transcrever aqui um breve trecho da entrevista concedida pelo autor de As infâncias de Quaderna à Folha de S. Paulo, em 1991, no qual fala de sua aversão ao marxismo e à tirania soviética:
                                      sempre fui socialista, mas sempre tive horror ao marxismo. Eu acho o marxismo um pensamento estreito, castrador. Eu não me entendia com os comunistas brasileiros porque achava que eles agiam com faca de dois gumes, com pau de dois bicos. Quando eu denunciava o imperialismo americano e me batia contra a exploração americana no Brasil e coisa, eles batiam palma para mim. Mas quando eu dizia que o stalinismo era uma ditadura horrorosa, assassina, era considerado vendido aos americanos, a Wall Street. Eu sempre denunciei as duas coisas [15].
Faz-se mister salientar, do mesmo modo, que Ariano Suassuna sempre proclamou suas convicções católicas, defendendo corajosamente princípios da Fé e da Moral Católica em diversas ocasiões, havendo sido, aliás, muitas vezes chamado de “arcaico” em razão disto. Na palestra que deu no Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília, a 18 de abril de 2012, na inauguração do Auditório Ministro Mozart Victor Russomano, afirmou ele, com efeito, que era católico e que sua “visão do mundo e do homem” era “uma visão religiosa”, refutando, em seguida, a teoria da evolução, de Charles Darwin. Pouco mais tarde, aduziu que, diversamente dos “herois” de Cazuza, que, segundo este, morreram de overdose, seu “Heroi principal” jamais teve uma overdose, tendo morrido na Cruz, entre dois ladrões, e ressaltou que era necessário sustentar os valores religiosos e morais “sem ter medo de ser considerado arcaico” ´[16].
Joaquim Duarte Dantas, o tio católico, monárquico e integralista de Suassuna, inspirou o personagem Samuel Wandernes, ou Wan d’Ernes, como este preferia que escrevessem, do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, assim como Manuel Dantas Villar inspirou o personagem Clemente Anvérsio, do mesmo romance.
Promotor de Justiça de Taperoá e inspirado poeta, foi Samuel Wandernes o criador do movimento literário denominado “Tapirismo Ibérico-Armorial do Nordeste”, para o qual “onça é ‘jaguar’, anta é ‘Tapir’, e qualquer cavalinho esquelético e crioulo do Brasil é logo explicado como ‘um descendente magro, ardente, nervoso e ágil das nobres raças andaluzas e árabes, cruzadas na Península Ibérica e para cá trazidas pelos Conquistadores fidalgos da Espanha e de Portugal, quando realizaram a Cruzada épica da Conquista’” [17], isto é, da Conquista da América Hispânica, Lusíada e Castelhana, que Wandernes qualificou de autêntica “‘Epopeia’” [18].
Isto posto, cumpre enfatizar que o estilo de escrita de Pedro Quaderna, protagonista e narrador do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, e, por conseguinte, do próprio Suassuna, é, em suas palavras, uma “fusão feliz” do estilo rebuscado do “Tapirismo Ibérico-Armorial do Nordeste” e do estilo simples do “Oncismo Negro-Tapuia do Brasil”, criado pelo Professor Clemente Anvérsio [19].
Samuel Wandernes não era um filho do Sertão, mas sim um “‘um gentil-homem dos Engenhos pernambucanos’, como costumava dizer” [20]. Depois de se formar em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, no dealbar do século 20, planejara aquele então jovem “‘poeta do Sonho e pesquisador da Legenda’” escrever “uma obra-de-gênio intitulada O Rei e a Coroa das Esmeraldas”. Para a feitura de tal “‘livro de tradição e de brasilidade’”, se dedicara a pesquisas heráldicas e genealógicas sobre as famílias aristocráticas de Pernambuco, antiga Nova Lusitânia, acabando por se deparar, no meio de tais pesquisas, com a história da família Garcia-Barretto, chegando à conclusão de que o patriarca de tal família, Dom Sebastião Barretto, não era senão El-Rei Dom Sebastião I de Portugal, que teria vindo para o nordeste da Terra de Santa Cruz depois da derrota de Alcácer-Quibir, no norte da África. Descobrira, ainda em suas pesquisas, que a família Garcia-Barretto ainda sobrevivia, nos fundos do Sertão do Cariri da Paraíba, estando viva, pois, a descendência do soberano “‘moço, casto e guerreiro como o Santo que lhe deu o nome’” e que foi, em seu sentir, um “‘Cruzado e cavaleiro medieval extraviado na Renascença ibérica’” [21], havendo decidido então seguir para o Sertão, onde acabara por permanecer depois de ali ter encontrado os supostos descendentes d’El-Rei Dom Sebastião.
Samuel Wandernes, que brilhava de modo singular na “plêiade zodiacal e literária de Taperoá” [22], foi, ao lado de Pedro Quaderna e de Clemente Anvérsio, fundador da “Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba” [23]. Patriota, nacionalista e defensor da Fé Católica e do retorno do Brasil “a seus caminhos”, ou seja, ao “caminho ibérico e fidalgo dos Conquistadores e sertanistas” [24], era ele um profundo admirador de Plínio Salgado, com quem tinha contato desde o tempo em que este liderara o movimento literário denominado “Revolução da Anta” e a quem via como uma das grandes “‘esperanças de restauração do grande império da Nova Ibéria’” [25]. Após a fundação, por Plínio Salgado, da Ação Integralista Brasileira (AIB), o poeta fidalgo dos engenhos da antiga Nova Lusitânia entrou para tal organização, fundando o núcleo integralista de Taperoá. Tinha até mesmo “‘recebido um cartão de Plínio Salgado, com quem passara a manter relações de amizade depois da visita que o Chefe Nacional fizera ao Sertão da Paraíba, em companhia dos intelectuais paraibanos Hortênsio Ribeiro e Pedro Batista’, como diziam na rua, deslumbrados com o prestígio de Samuel, pois o Chefe Plínio Salgado, além de político, era um literato nacionalmente consagrado” [26].
Isto posto, cumpre assinalar que o personagem Samuel Wandernes apresenta algumas posições que diferem sobremaneira daquelas da Doutrina Integralista, a saber, um certo desprezo pelo povo e pelo Sertão e mesmo preconceitos de ordem étnica contra negros e índios. Não sabemos se Joaquim Duarte Dantas, que, como vimos, inspirou o aludido personagem de Suassuna, tinha tais ideias, mas se as tinha, estava parcialmente em desacordo com os princípios da Doutrina do Sigma.   
Já havendo nos estendido além do que pretendíamos, encerramos aqui o presente artigo em memória de Ariano Suassuna, sublinhando, uma vez mais, que o romancista do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, dramaturgo de O desertor de Princesa e poeta de Pasto incendiado é um dos primeiros vultos do firmamento literário pátrio, tendo sido, em vida, ademais, um dos primeiros patriotas deste Império de Santa Cruz-Brasil. E àqueles que nos censurarem por elogiá-lo, nos apontando seus erros políticos e doutrinários e os defeitos que há em sua obra, responderemos dizendo que não é por estar equivocado em algo que alguém está equivocado em tudo.

Victor Emanuel Vilela Barbuy,.
São Paulo, 17 de agosto de 2014.

Notas:
[1] Cumpre sublinhar que todos os intelectuais mencionados, com exceção de Gladstone Chaves de Mello, Sílvio Meira, Peregrino Júnior e Vianna Moog, foram, assim como Suassuna, membros fundadores do Conselho Federal de Cultura.
[2] Um romance picaresco?, in Ariano SUASSUNA, Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, 8ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 2006, p. 16.
[3] Idem, p. 17.
[4] Trecho de texto citado na contracapa da 8ª edição do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, já aqui citada.
[5] Trecho de texto citado na contracapa da 8ª edição do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, já aqui citada.
[6] A Pedra do Reino, in Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, p. 745.
[7] Idem, p. 754.
[8] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991. Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_16jun00.htm. Acesso em 10 de agosto de 2014.
[9] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 7.
[10] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991 e já aqui citada.
[11] Idem.
[12] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 7.
[13] Cf. Ariano SUASSUNA, Meu “comunismo”, in Folha de S. Paulo, 31/08/1999. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz31089907.htm. Acesso em 11 de agosto de 2014.
[14] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991 e já aqui citada.
[15] Idem.
[16] Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5MDYKt7Bb0g. Acesso em 11 de agosto de 2014.
[17] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 50.
[18] Idem, p. 62.
[19] Idem, p. 50
[20] Idem, pp. 165-166.
[21] Idem, p. 166.
[22] Idem, p. 177.
[23] Idem, p. 183.
[24] Idem, p. 188.
[25] Idem, p. 246.
[26] Idem, p. 254.

sábado, 18 de março de 2017

130 anos de Heitor Villa-Lobos



Há exatos cento e trinta anos, na Rua Ipiranga, no bairro de Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, no Império do Brasil, nasceu o Maestro Heitor Villa-Lobos, maior compositor erudito da Terra de Santa Cruz e das Américas do século XX e um dos grandes gênios da Música Universal. É ao som das envolventes melodias, transbordantes de beleza, de vida e de Brasilidade de Villa-Lobos que escrevemos estas linhas sobre este magno intérprete da Alma Nacional, que transpôs para sua Música as vozes do nosso povo, dos nossos rios, dos nossos mares, das nossas cachoeiras, da nossa fauna e da nossa flora.
Arnaldo Magalhães de Giacomo poeticamente descreveu, no dealbar de seu livro Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, o dia de fim de verão em que veio ao Mundo este ilustre Mestre da nossa Música como um dia de céu límpido, azul e luminoso, embalado por sons como o ciciar das cigarras nas mangueiras dos quintais do tranquilo bairro de Laranjeiras, o farfalhar das folhas das numerosas árvores desta bucólica área do então Município Neutro, o chilrear dos pássaros, o cantar próximo dum seresteiro que passou pela calçada e o cantar longínquo dum velho realejo. Enquanto, porém, fora da casa em que nasceu o menino prosseguia esta sinfonia de sons, dentro dela reinava o silêncio, pois todos temiam que o recém-nascido, frágil e prematuro, pudesse não resistir e qualquer barulho poderia apressar esse possível fim. O menino, contudo, era forte e havia de viver, tendo uma vida repleta de glórias e de belezas, e não seria médico, como queria sua mãe, D. Noêmia Monteiro Villa-Lobos, mas sim um compositor, “instrumento de Deus na criação da Beleza”.[1]
Batizado no dia 17 de janeiro do ano de 1889, na Igreja de São José, Heitor Villa-Lobos sempre se declarou católico e compôs diversas peças de Música Sacra, dentre as quais as mais célebres são, sem sombra de dúvida, a Missa de São Sebastião, de 1937, e o Magnificat-Aleluia, de 1958.
O amor do travesso menino Tuhu, primeiro apelido de Heitor Villa-Lobos, pela Música, brotou desde cedo em sua alma e vem do avô materno, o compositor e pianista Antônio José dos Santos Monteiro, autor de diversas quadrilhas, valsas, polcas e modinhas, cuja Quadrilha das moças fizera verdadeiro furor na Corte dos dias do crepúsculo do Império, e vem, mais ainda, do pai, Raul da Silveira Villa-Lobos. Este, além de professor, diplomado pelo Conselho Superior de Instrução Pública como habilitado a lecionar todas as matérias do curso de preparatórios, oficial da Biblioteca Nacional, autor de livros de História, Geografia e Astronomia e tradutor de obras de diferentes campos do saber, pintor, sócio honorário do Instituto dos Bacharéis em Letras e colaborador de diversos jornais e revistas, era também musicista, tocando violoncelo, fagote e clarinete e tendo sido agraciado pela Imperatriz Teresa Cristina com uma medalha de ouro, havendo, ainda, fundado o Clube Sinfônico.
Tendo notado a vocação do filho para a Música, o Professor Raul Villa-Lobos mandou adaptar um espigão a uma viola, criando, assim, um violoncelo apropriado ao tamanho do menino, instrumento que deu ao então futuro compositor quando este contava cerca de cinco anos de idade, havendo, em seguida, ensinado a criança a tocá-lo.
Quando o menino Tuhu tinha seis anos de idade, teve que se mudar, com a família, para o interior do Estado do Rio de Janeiro e, depois, para Minas Gerais, onde viveu por algum tempo, nas cidades de Bicas e Cataguases.
A saída da família Villa-Lobos do Rio de Janeiro se deu porque Raul Villa-Lobos temia sofrer perseguições políticas do autoritário governo do Marechal Floriano, que atacara duramente em diversos artigos na imprensa, como o faria também nos livros A Revolta da Armada, de 6 de setembro de 1893 (1894) e A Revolução Federalista do Rio Grande do Sul: documentos e comentários (1897), ambos assinados com o pseudônimo de Epaminondas Villalba.
Menino da então Capital Federal, Heitor Villa-Lobos ficou fascinado com as modas de viola e os violeiros que as tocavam, bardos caboclos a que amaria até o fim de seus dias sobre a Terra,[2] como fontes de Música e da mais pura e nobre Poesia,[3] cujas melodias ecoariam em toda a obra do Mestre das Bachianas Brasileiras (1930-1945), dos Choros (1920-1929) e das suítes do Descobrimento do Brasil (1937) e sobretudo em composições como Cascavel (1917), Solidão (Solitude) (cerca de 1920) e Viola quebrada (1919-1929), tendo a última letra de Mário de Andrade e sendo a penúltima uma versão musicada do poema de mesmo nome de Rui Ribeiro Couto.
De volta ao Rio de Janeiro, o menino Heitor, ouvindo sua tia Zizinha executar, ao piano, com muito talento, o Cravo bem temperado, de Johann-Sebastian Bach, ficava a imaginar se na profunda e suave melodia do mestre alemão não havia algo que evocava a singela e doce beleza das modas de viola[4] que ouvira nos sertões mineiros, tocadas pelos menestréis caipiras, e cujas melodias guardara no fundo da alma. A Música de Bach, que amaria entranhadamente por toda a vida, muito influenciou a obra do magno compositor patrício e nomeadamente as suas geniais Bachianas Brasileiras, que até no nome homenageiam o compositor de Leipzig.
Em 1899, o Professor Raul Villa-Lobos, que, diga-se de passagem, era um homem muito pródigo, faleceu, aos trinta e nove anos de idade, vitimado pela varíola, deixando a família na pobreza.
Na alvorada do século XX, Villa-Lobos, que já compusera algumas músicas, tornou-se um grande “chorão” e seresteiro e passou a dar aulas particulares de violão e a tocar em teatros, bares, hotéis e cabarés para ganhar a vida, enquanto, por gosto, passava as noites a tocar choros e a fazer serestas em companhia de outros “chorões” e seresteiros do Rio daquele tempo. Nesta época, também tocou violoncelo na Igreja de Nossa Senhora da Penha, no bairro carioca de Jacarepaguá, acompanhando o coro daquela igreja, regido por D. Carolina Marcondes do Amaral.
Em 1905, com dinheiro obtido com a venda daquilo que restara da biblioteca do pai, Villa-Lobos viajou para o Espírito Santo e, em seguida, para o Nordeste Brasileiro, principiando a realizar o seu sonho de conhecer todo o Brasil, bem como o seu Folclore e a sua Tradição.
Depois de alguns meses no Nordeste, Villa-Lobos retornou ao Rio, ali reiniciando suas composições e voltando a tocar em teatros, bares e cabarés. A ânsia de conhecer todo o Brasil, contudo, logo o levou a viajar novamente, desta vez para o Sul do País.
Em 1908, o jovem compositor, que retornara ao Rio de Janeiro no ano anterior, atingiu não apenas a maioridade civil, ao completar vinte e um anos de idade, como também a maioridade artística, ao escrever os Cantos sertanejos, primeira obra resultante de suas brasílicas andanças,[5] que Carlos Marinho de Paula Barros chamaria de “bandeiras musicais”.[6]
Por essa mesma época, o compositor iniciou o curso de Harmonia do Instituto Nacional de Música, ministrado pelo Professor Frederico Nascimento. A rigidez e o convencionalismo imperantes no Instituto foram decisivos para que o então futuro grande renovador da nossa Música logo deixasse as aulas daquela tradicional instituição.
Pouco depois, Villa-Lobos partiu em novas viagens, desta vez pelo interior de São Paulo e por Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, ouvindo modinhas, cantos do Divino e de São Gonçalo, xácaras e outras músicas de raiz do Brasil Caboclo.
Em 1910, Villa-Lobos se engajou, no Rio de Janeiro, como violoncelista da orquestra de uma companhia de opereta que deveria seguir em turnê pelo Nordeste e por parte do Norte Brasileiro. As dificuldades financeiras, contudo, levaram a companhia à dissolução, que se deu quando esta se encontrava na cidade do Recife, em Pernambuco.
Villa-Lobos, porém, estava decidido a conhecer a região amazônica e, assim, seguiu sozinho até Fortaleza, no Ceará, e de lá até Belém, no Pará, de onde voltou a Fortaleza, dali retornando à região Norte pouco depois, em companhia dum músico, pianista e saxofonista, por nome de Donizetti. O autor dos Cantos sertanejos percorreu, ao lado de Donizetti, grande parte da Amazônia, tendo chegado com este até Manaus, que, então conhecida como a Paris das Selvas, vivia o apogeu do chamado ciclo da borracha, e depois até o Acre, onde o então jovem compositor contraiu malária, tendo, todavia, resistido bem a esta terrível doença em razão do quinino que ingeriu.
Como nas demais incursões que realizou pelo interior deste vasto Império do Brasil, Villa-Lobos recolheu, na Amazônia, inúmeros temas folclóricos, muitos dos quais posteriormente reunidos em seu monumental Guia Prático, organizado nas décadas de 1930 e 1940.
No Estado do Amazonas, Villa-Lobos, que então já tivera diversas namoradas e até noivas, enamorou-se duma bela moça inglesa, em cuja companhia resolveu seguir para os Estados Unidos da América. Ao chegar, no entanto, à ilha de Barbados, no Caribe, o vapor que os transportava desde Belém e que seguia para a pátria de Teddy Roosevelt teve de encostar para realizar alguns reparos. Uma vez na ilha, conhecido centro de jogatina, o compositor brasileiro e sua namorada inglesa acabaram perdendo na mesa de jogo todo o pouco dinheiro que possuíam, de modo que, a fim de custear a estadia no hotel em que tinham se hospedado, tiveram que tocar nos bares e cabarés da ilha caribenha, havendo ele tocado violoncelo e ela, piano. Ainda em Barbados, esfriou o amor dos dois musicistas, de sorte que a moça dali seguiu sozinha para a América do Norte e o compositor voltou para Belém.[7]
Foi na ilha de Barbados que Villa-Lobos teve a inspiração necessária para iniciar a composição das suas Danças africanas, concluídas em 1919.
De volta ao Rio de Janeiro, onde muitos o julgavam morto, tendo D. Noêmia chegado a encomendar uma Missa pela sua alma, o compositor patrício escreveu, naquele ano de 1912, as óperas em um ato Aglaia e Elisa, por ele fundidas, no ano seguinte, numa ópera em quatro atos a que deu o nome de Izaht.
Ainda em 1912, Villa-Lobos, que agora tocava violoncelo, durante o dia, na Confeitaria Colombo e, à noite, no restaurante Assírio, no edifício do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conheceu a pianista e professora de piano Lucília Guimarães, irmã do escritor Luís Guimarães, tendo os dois se casado em 12 de novembro do ano seguinte.
Em janeiro de 1915, na cidade fluminense de Nova Friburgo, deu-se o primeiro concerto de músicas de Villa-Lobos, em que o compositor tomou parte como violoncelista e sua esposa, como pianista.
A 31 de julho do mesmo ano, Villa-Lobos, que dera mais dois concertos com composições suas em Nova Friburgo, teve o seu primeiro concerto no Rio de Janeiro, mais precisamente no Teatro São Pedro, atual Teatro João Caetano, sob o patrocínio da Sociedade de Concertos Sinfônicos e a regência do Maestro Francisco Braga.
Ainda em 1915, mais precisamente aos 13 de novembro, Villa-Lobos deu, no salão do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, o seu primeiro concerto como maestro, regendo diversas composições de sua autoria.
Em 1918, o célebre pianista judeu-polonês Arthur Rubinstein, de passagem pelo Rio, vindo de Buenos Aires, ouviu, no Cine Odeon, a orquestra deste, de que então fazia parte, como violoncelista, o compositor Villa-Lobos, executar uma de suas Danças africanas.[8] Finda a exibição do filme, o pianista foi cumprimentar o compositor, sobre cuja Música, aliás, já ouvira grandes elogios desde que chegara ao Brasil, e manifestou o desejo que tinha de conhecer mais profundamente a obra do jovem Maestro brasileiro. Villa-Lobos, porém, disse a Rubinstein que, como virtuose que era, não podia compreender sua Música. Convencendo-se, porém, de que o famoso pianista realmente queria conhecer sua Música e de que poderia realmente apreciá-la, Villa-Lobos logo mudou de atitude em relação a ele e já no dia seguinte, pela manhã, visitou-o no Palace Hotel, onde estava hospedado. E visitou-o em companhia dum grupo de músicos, apresentando, então, a Rubinstein, no quarto de hotel em que este dormira, as suas principais composições. Estas maravilharam o celebrado pianista, que, a partir de então, tornou-se um dos maiores admiradores e divulgadores de Villa-Lobos e de sua Música, contribuindo como poucos para difundi-la fora das fronteiras do Brasil.
Isto posto, cumpre ressaltar que, anos mais tarde, declarou Rubinstein a Vasco Mariz que Villa-Lobos era, em seu sentir, o mais notável músico de toda a América.[9]
Em 1922, a convite de Ronald de Carvalho e de Graça Aranha, Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, nela tendo regido várias de suas composições e havendo sido, por mais de uma vez, vaiado, o que se deu tanto em razão de uma parte da plateia não ser capaz de compreender a grandeza da sua Música quanto por ter-se apresentado no palco de casaca e chinelos, o que, em verdade, ocorreu em virtude de se encontrar, então, com um dos pés machucado. As vaias, porém, não incomodaram o Maestro, que, com efeito, até se divertiu com elas, que, ademais, amplamente comentadas dentro e fora dos jornais, até promoveram a sua Música, sobretudo na Capital Paulista.
Ainda em 1922, Villa-Lobos apresentou, perante o Rei Alberto, da Bélgica, então em visita ao Brasil, as suas Sinfonias número 3 (Da Guerra) e 4 (Da Vitória).[10]
No ano seguinte, Villa-Lobos realizou sua primeira viagem à Europa, fixando-se em Paris, cidade em que logo conquistou notória popularidade,[11] compôs diversas músicas, e, em 1924, viu Rubinstein executar a sua Prole do bebê e Vera Janacopulos cantar, em português, os seus Epigramas irônicos e sentimentais, versões musicadas de alguns dos poemas da obra do mesmo nome de Ronald de Carvalho.
Entre 1923 e 1930, o Maestro Villa-Lobos viveu a maior parte do tempo em Paris,[12] onde, pela força do invulgar talento e da incontestável genialidade, marcou seu lugar entre os maiores compositores daquele tempo. Fez, porém, nesse período, diversas viagens ao Brasil, realizando, em São Paulo, uma série de concertos, patrocinados por D. Olívia Guedes Penteado, tendo, então, a oportunidade de dar as primeiras audições, em nossa Pátria, não apenas de muitas composições suas, mas também de diversas obras de grandes compositores franceses, incluindo o Bolero, de Maurice Ravel.[13]
Como frisou Vasco Mariz, o período em que Villa-Lobos viveu em Paris foi um período de muito intensa  e inspirada produção, em que o compositor escreveu, além da maior parte da longa série dos Choros, iniciada no Brasil, em 1920, com o Choro nº 1, dedicado ao compositor Ernesto Nazareth, as Cirandas, o Rude poema, Momo precoce, as Serestas e o Noneto.[14]
Considerados por muitos a sua mais notável contribuição para a chamada Música Moderna,[15] os Choros são, no dizer de Arnaldo Magalhães de Giacomo, “uma forma de música toda especial em que Villa-Lobos procurou fundir suas impressões brasileiras”. Neles se sente, ainda na expressão do autor de Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, “a paisagem da Pátria, a voz dos pássaros, lembranças de serenatas e valsinhas suburbanas, ritmos do carnaval carioca, a voz trêmula do violão, dolências de cantigas africanas”. Ademais, o índio constantemente se faz presente na referida obra, em temas que o compositor colheu nas próprias selvas, enquanto líricas expressões de modinhas populares pátrias aparecem de quando em quando, dando à melodia dos choros a espontânea ingenuidade do povo do Brasil Profundo.[16]
Em 1926, Villa-Lobos viajou à Argentina, onde realizou três festivais sinfônicos para a Asociación Wagneriana, de Buenos Aires, e, retornando à Europa, promoveu, no ano seguinte, diversas audições de suas inspiradas obras e regeu orquestras em Londres, Amsterdam, Viena, Berlim, Bruxelas, Liège, Madri, Lyon, Amiens, Poitiers, Barcelona e Lisboa.[17] Ainda em 1927, tornou-se Professor de Composição do Conservatório Internacional de Paris, onde foi colega, dentre outros, de Maurice Ravel, Manuel de Falla, Florent Schmitt, Alfredo Casella e Arthur Rubinstein.
Em 1930, Villa-Lobos voltou ao Brasil, a convite de D. Olívia Guedes Penteado, que patrocinou mais uma série de concertos do Maestro e compositor em São Paulo.
Antes, contudo, de seguir para a Capital Bandeirante, Villa organizou uma audição de obras suas no Recife, mais precisamente no tradicional Teatro Santa Isabel, e passou alguns dias no Rio de Janeiro, matando as saudades da terra natal.[18]
Durante o período em que permaneceu em São Paulo, o Maestro Villa-Lobos, negativamente impressionado com o descaso com que a Música era então tratada nas escolas brasileiras, apresentou, em casa de D. Olívia Guedes Penteado, ao Dr. Júlio Prestes, Presidente do Estado de São Paulo e candidato à Presidência da República pelo Partido Republicano Paulista (PRP), um memorando em que esboçou um valioso plano de educação musical das nossas crianças. O Dr. Júlio Prestes prometeu dar integral apoio àquele plano, que também foi apresentado à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, caso fosse eleito Presidente da República.   
 O Dr. Júlio Prestes se elegeu à Presidência da República, mas não pôde assumi-la em razão do triunfo da chamada Revolução de 1930, encabeçada pelas forças da denominada Aliança Liberal. Assim, Villa-Lobos, desalentado, resolveu voltar à Europa. Já se preparava o genial  Maestro e compositor patrício para seguir para o Velho Continente, quando recebeu a visita de um oficial graduado, que o convidou a comparecer ao Palácio dos Campos Elíseos a fim de debater com o Tenente João Alberto Lins de Barros,  então Interventor do Estado de São Paulo, o seu plano de educação musical. O Interventor de São Paulo e o musicista entraram em entendimento e este último desistiu de retornar a Paris, passando a se dedicar com grande afinco à realização de seu projeto.[19]
Assim, com o apoio de João Alberto, Villa-Lobos, este “bandeirante da música”, na expressão de Francisco Pereira da Silva,[20] realizou uma verdadeira bandeira artística por diversos municípios do Estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, em que teve por companheiros o pianista e Maestro Sousa Lima, a pianista Antonieta Rudge e a cantora Nair Duarte Nunes.
Durante esta sua bandeira artística por parte do interior do nosso País, além de dar concertos, Villa-Lobos, reacendendo seu espírito altamente combativo, fez inúmeras conferências violentíssimas, em que, dentre outras coisas, atacou duramente o futebol, que, em seu entender, fazia a inteligência humana se desviar da cabeça para os pés.[21]
Em 1932, após dois anos de ingentes esforços em prol da educação musical nas escolas paulistas, Villa-Lobos voltou para o Rio de Janeiro para dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística, recém-criado órgão da Prefeitura do então Distrito Federal. A partir de então, realizou o Maestro, na Capital do País, intensa propaganda de educação popular por meio de grandes concentrações orfeônicas, conferências e artigos publicados nos maiores jornais cariocas.[22]
Ainda em 1930, quando se encontrava em São Paulo, Villa-Lobos iniciou a composição da sua obra-prima, as Bachianas Brasileiras, terminando ainda em tal ano a Bachiana Brasileira nº 1, escrita para os concertos do Maestro Burle Marx no Rio de Janeiro, e a Bachiana Brasileira nº 2, que é, sem dúvida alguma, a mais célebre de todas as Bachianas, bem como, em nosso sentir, a mais bela dentre todas essas verdadeiras joias da nossa Música. Composta por Prelúdio (O Canto do Capadócio), Ária (O Canto da nossa Terra), Dança (Lembrança do Sertão) e Tocata (O trenzinho do caipira), esta última Bachiana foi tocada pela primeira vez no VI Festival Internacional de Música Contemporânea da Bienal de Arte de Veneza, em 1938, sob regência do Maestro Alfredo Casella.
A série das nove Bachianas Brasileiras, concluída em 1945, é um conjunto de obras inspiradas na atmosfera musical de Bach, considerado pelo compositor pátrio como um manancial folclórico universal,[23] e, sobretudo, na alma musical da Nação Brasileira,[24] nela tendo Villa-Lobos realizado a perfeita união entre Bach e o Brasil Profundo.
Em 1933 foi criada, no Rio de Janeiro, a Orquestra Villa-Lobos e, no ano seguinte, o Maestro regeu, também no Rio, o seu bailado Jurupari (Choro nº 10), espetáculo que seria repetido em 1935, na Sala Pleyel, em Paris. Em julho de 1934, foi ao Recife, onde presidiu um concurso de bandas e orfeões militares, organizado em sua homenagem.
No ano de 1935, Villa-Lobos viajou novamente à Argentina, onde fora contratado para reger três concertos no Teatro Colón, em Buenos Aires. Estando na capital argentina por ocasião da visita de Getúlio Vargas àquele país, regeu também, na noite de gala que então houve no Teatro Colón, aos 25 de maio daquele ano, o seu bailado Uirapuru, composto em 1917. Ainda antes de volver ao Brasil, organizou o Maestro, na Asociación Wagneriana, um concerto de música de câmara.
Em 1936, a convite do governo da Tchecoslováquia, Villa-Lobos seguiu, no dirigível alemão Zeppelin LZ 129 Hindenburg, até a Europa, onde deveria tomar parte no Congresso de Educação Musical de Praga, representando o Brasil. Em razão duma avaria nos motores, porém, o Zeppelin se atrasou um pouco, de modo que o Maestro chegou a Praga somente depois do término  do referido Congresso. Este fato, porém, não impediu o assinalado musicista de dar uma conferência e um espetáculo na bela capital tchecoslovaca, espetáculo este que fez enorme sucesso e no qual, com uma cantora local e um pequeno orfeão infantil, executou sua Alegria de Viver, cantada no idioma de Camões.[25]
 Após representar o Brasil em Praga, Villa-Lobos seguiu para Viena, onde, a convite da Academia de Música da capital austríaca, foi membro do júri do Concurso Internacional de Canto e Piano, e, em seguida, fez uma conferência na Legação do Brasil na antiga capital do Sacro Império Romano-Germânico e do Império Austro-Húngaro.
De volta ao Brasil, Villa-Lobos, unindo-se às celebrações do centenário de Carlos Gomes, regeu, no dia 27 de outubro daquele ano de 1936, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o oratório Colombo, do magno compositor campineiro. Auxiliado por Salvatore Ruberti, Villa-Lobos, maior compositor do Brasil e das Américas do século XX, transformou em ópera o referido oratório, uma das obras-primas do maior compositor do Brasil e das Américas do século XIX, escrevendo, para aquela apresentação, um interlúdio rigorosamente no estilo da obra do gênio de Campinas.[26]
Em 1937, Villa-Lobos, que, no ano anterior, contra a vontade de sua mãe, D. Noêmia, trocara a esposa Lucília por Arminda Neves d’Almeida, tornou-se membro honorário da prestigiosa Academia de Santa Cecília, em Roma, e, em nosso País, estreou o filme Descobrimento do Brasil, de Humberto Mauro, tendo como trilha sonora as suítes de mesmo nome do compositor das Bachianas Brasileiras.
 Dois anos mais tarde, o compositor brasileiro escreveu, em prosa, uma Oração a Santa Cecília, padroeira da Música, lida por César Ladeira no programa radiofônico A Hora do Brasil do dia 22 de novembro (Dia da Música e dos Músicos) daquele ano de 1939.
Em 1940, Villa-Lobos chefiou a Embaixada Artística Brasileira, que seguiu para Montevidéu, no Uruguai, e regeu, no estádio do Club de Regatas Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, um coro de quarenta mil estudantes, numa demonstração de canto orfeônico. No ano seguinte, numa nova demonstração de canto orfeônico no estádio do Vasco da Gama, sob a regência de Villa-Lobos, o cantor Sílvio Caldas cantou Gondoleiro do amor, versão musicada do poema de Castro Alves, acompanhado por trinta mil vozes de estudantes.
No ano de 1942, Villa-Lobos foi eleito membro da Sociedade dos Homens de Letras e foi criado, no Rio de Janeiro, sob a direção do compositor, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, que em 1967 passaria a se chamar Instituto Villa-Lobos.
Em 1944, o Maestro, que, no ano anterior, recebera o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Nova Iorque, dirigiu uma série de concertos sinfônicos na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, e foi eleito membro correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, da Argentina. Ainda no ano de 1944, realizou uma excursão artística ao Chile e, em seguida, iniciou uma longa turnê pelos Estados Unidos da América.
De volta ao Brasil em 1945, fundou, neste mesmo ano, a Academia Brasileira de Música, de que foi o primeiro presidente. No ano seguinte, recebeu o Prêmio de Música, concedido pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.
Em 1948, já sofrendo do câncer que o vitimaria onze anos mais tarde, o Maestro Villa-Lobos submeteu-se a delicada cirurgia no Memorial Hospital de Nova Iorque.
No ano seguinte, reiniciou suas turnês artísticas por muitas das principais cidades da Europa e da América, que se estenderiam até o ano de sua morte.
Em 1952, tornou-se membro correspondente do Instituto de França e, três anos mais tarde, Oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra, também da França.
Em 1957, ano em que completou setenta anos de idade, dirigiu um concerto com a Filarmônica de Nova Iorque e o jornal The New York Times lhe dedicou um editorial. Depois regeu, na BBC de Londres, a Orquestra Filarmônica da capital inglesa, e, no Brasil, foi homenageado com a Semana Villa-Lobos, realizada em São Paulo, tendo sido, na mesma ocasião, agraciado com o título de Cidadão Paulistano.
Em abril de 1959, o Maestro Villa-Lobos regeu, em Trieste, na Itália, o último de seus concertos europeus e, em julho do mesmo ano, na cidade de Big Mountain, perto de Nova Iorque, regeu aquele que não foi apenas o seu último concerto nos Estados Unidos da América, como também o derradeiro de todos os concertos por ele regidos ao longo da vida terrena. De volta à Pátria, recebeu, no dia 14 de julho, durante as celebrações do cinquentenário do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Medalha Carlos Gomes, tendo sido, pouco depois, internado no Hospital dos Estrangeiros, onde permaneceu por alguns meses, recebendo, nesse período, algumas visitas ilustres, como aquelas do compositor argentino Alberto Ginastera, do escritor francês André Malraux e do Presidente Juscelino Kubitschek. No dia 7 de setembro, assistiu, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ao seu último concerto, no qual o Maestro Edoardo Guarnieri regeu o seu Magnificat-Aleluia, composto no ano anterior.
No dia 17 de novembro, não suportando o agravamento da doença, faleceu o Maestro Heitor Villa-Lobos em sua residência.  Seu corpo foi velado no Salão Nobre do Palácio da Cultura e sepultado, no dia seguinte, no Cemitério de São João Batista.
Como bem observou, porém, Arnaldo Magalhães de Giacomo, em seu Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, continua vivo o genial criador das Bachianas Brasileiras e sua Música se eleva pelos quatro cantos da nossa amada Terra Brasileira, enquanto seu nome está gravado no coração do nosso povo.[27]
Plínio Salgado, em seu pequeno porém magnífico Compêndio de Instrução Moral e Cívica, sabiamente elencou Villa-Lobos, assim como os também compositores Carlos Gomes e Alberto Nepomuceno, por ele reputados, com justiça, os três grandes gênios da nossa Música, entre os heróis da Pátria Brasileira.[28]
Em seu monumental Dicionário do Folclore Brasileiro, observou Luís da Câmara Cascudo que Villa-Lobos é “um dos mais eminentes compositores de universal projeção contemporânea”. Em seguida, salientou que a sua prodigiosa imaginação, a surpreendente originalidade das suas soluções técnicas, a envolvente e sempre nova beleza da sua melodia, a inesgotável riqueza dos recursos de expressão, o soberano domínio em qualquer dos gêneros musicais, a graça, a natural e irradiante simpatia da figura do mestre, dele fizeram uma “personalidade invulgar e rara presença na legitimidade de gênio incontestável”. Ainda no dizer de Câmara Cascudo, a obra de Villa-Lobos, “vasta e soberba de solidez e força sugestiva, mantém o sabor musical acentuadamente brasileiro”, particularmente do Folclore Nacional, “fonte predileta da inspiração magistral”, valorizando bailados indígenas, rondas infantis, danças e cantos afro-brasileiros, modinhas e choros dos nossos seresteiros do campo e da cidade, “numa elevação de ritmos da tradição e aproveitamento dos efeitos instrumentais populares”.[29]
Ainda como bem destacou o ilustre autor de Vaqueiros e cantadores e máximo estudioso do nosso Folclore (Câmara Cascudo), o interesse, o devotamento, a alegria do convívio humano para com todas as legítimas manifestações da Cultura Pátria, “integram Villa-Lobos como uma das égides naturais na campanha de pesquisa e estudo do folclore nacional”.[30]
Assim, Villa-Lobos, “bandeirante do século XX”, na expressão de Carlos de Paula Barros,[31] e “bandeirante da música”, no dizer de Francisco Pereira da Silva,[32] foi, de fato, um Bandeirante, um Bandeirante do Brasil Profundo e da sua Tradição, que descobriu o inesgotável veio de ouro das essências do Folclore Pátrio.
Encerremos estas linhas. Como restou dito, o Maestro Heitor Villa-Lobos, maior compositor erudito do Brasil e das Américas do século XX e um dos grandes gênios da Música Universal, muito engrandeceu esta nossa Terra de Santa Cruz com sua obra magistral, que, como aquela de Carlos Gomes, já faz parte da própria Identidade Nacional. Rogamos a Deus, Criador e Imperador do Universo, que suscite, na atual e nas próximas gerações, homens e mulheres que amem o nosso Brasil tanto quanto Villa-Lobos o amou e que tenham ao menos uma fração do ímpar poder criador deste grande filho deste vasto Império da Terra de Santa Cruz/Brasil.

Por Cristo e pela Nação!
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
São Paulo, 5 de março de 2017.


[1] Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, 5ª edição, revista, Ilustrações de Oswaldo Storni, São Paulo, Edições Melhoramentos, 1968, pp. 9-11.
[2] Cf. Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos (Coleção A vida dos grandes brasileiros – 10), Volume supervisionado por Américo Jacobina Lacombe, São Paulo, Editora Três, 2001, p. 43.
[3] Cf. Arnaldo Magalhães de GIACOMO, Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, cit., p. 17.
[4] Idem, p. 19.
[5] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, Rio de Janeiro, Serviço de Publicações do Ministério das Relações Exteriores, 1949, p. 36; Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos, cit., p. 63.
[6] O romance de Villa-Lobos, Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1951, p. 33.
[7] Cf. Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos, cit., p. 66.
[8] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 44.
[9] Idem, p. 45.
[10] Idem, p. 56.
[11] Idem, p. 57.
[12] Idem, p. 63.
[13] Idem, p. 60.
[14] Idem, p. 62.
[15] Idem, loc. cit.
[16] Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, cit., p. 74.
[17] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 60.
[18] Idem, p. 63; Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos, cit., p. 101.
[19] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 64.
[20] Villa-Lobos, cit., p. 101.
[21] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 64.
[22] Idem, loc. cit.
[23] Idem, p. 87.
[24] Cf. Arnaldo Magalhães de GIACOMO, Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, cit., p. 85.
[25] Idem, p. 94.
[26] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 67.
[27] Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, cit., p. 115.
[28] Compêndio de Instrução Moral e Cívica, 4ª edição, São Paulo, FTD, s/d, p. 90.
[29] Dicionário do Folclore Brasileiro, 2ª edição, Revista e aumentada, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1962, pp. 773-774.
[30] Idem, p. 774.
[31] O romance de Villa-Lobos, Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1951, p. 33.
[32] Villa-Lobos, cit., p. 101.